sexta-feira, maio 30, 2008

"Etrange comme je t'aime..."


Saiu de mansinho para não a acordar. Ela estava na cama deitada de barriga para baixo e com um pé de fora. Espreitando da cozinha, só lhe conseguia ver o pé direito com as unhas pintadas de vermelho. Bebia café lentamente, enquanto pensava na noite anterior. Aquela tinha sido a noite por que sempre tinha esperado. Amava-a mais que tudo no mundo, desde que se tinham conhecidos ainda em crianças. Havia uma cumplicidade entre eles que o deixava muitas vezes paralizado e descrente da possibilidade de tal sentimento. Tinha medo que aquilo fossem sintomas da paixão, aqueles que desaparecem passado algum tempo porque as pessoas se despem e perdem as capas. Mas com ela tudo parecia diferente. Era um sentimento avassalador. Quando via o seu sorriso de felicidade por estarem juntos, sentia o mundo parar. Ela tinha o poder de o alienar de tudo o que acontecia à sua volta. Achava-se capaz de beija-la horas e horas seguidas, de passar dias inteiros na sua companhia, de passar o resto dos seus dias a conversar, no entanto tinha medo. Uma medo que não sabia explicar, uma insegurança que era o sentimento oposto ao que ela o fazia sentir.
Quando ela lhe bateu à porta, ele esperava o homem da pizza. Tinha ligado à meia hora e a entrega já estava atrasada. Abriu a porta com a carteira na mão e ficou a olha-la surpreendido. Ela abriu o seu sorriso ao mundo, ao seu mundo e agarrou-se a ele num abraço de cumplicidade. Quando o homem da pizza chegou o abraço teve forçosamente de terminar.
- Jantas comigo...
Jantou, fumou um cigarro na varanda, conversou de pernas enrroladas no sofá e beijou-o. Como se fosse a primeira vez, como se o mundo se desiquilibrasse e todo o amor lhes caisse em cima. Amaram-se mesmo ali, na suspensão temporal daquele sentimento. Não prometeram nada um ao outro, mas em segredo ela jurou ser feliz para sempre e esquecer todas as inseguranças. Ouviu um telemóvel a tocar e despertou de repente. Da cozinha alguém atendia:
- Bom dia amor! Como estás?

quarta-feira, maio 28, 2008

Comunhão.


As nuvens brancas que sobem pelo tubo da minha caneta
invertem o nascimento da escrita.
São terra que se desfaz nas mãos com o calor.
A terra misturada na erva. Qualquer uma. Palha. Seca.
E é nessa brisa que nasce do nevoeiro nocturno
que encontro o teu olhar atento. Apatico.
Os olhos estão escondidos dentro da cabeça e
observam somente ideias vagas.
A natureza alheia-nos dos problemas do mundo
e faz-nos sentir demais. O amor.
Num instante de maior lucidez vemos restos
de terra sobre a linha do destino e do coração.
Sentimos o odor do corpo a queimar.
Em plena comunhão sorrimos sem conseguirmos pensar,
na escrita manipulada pela natureza.

segunda-feira, maio 26, 2008

Julgamento das palavras. Acusação das pessoas.

Escondidas atrás das palavras andam as pessoas que não têm rostos. No dobrar das letras sobre as superficies várias, as pessoas vão desenham os contornos ideiais. As linhas perfeitas nem sempre são aquilo que nelas vemos. A mesma palavra pode ser lida da mesma maneira e entendida de dez maneiras diferentes. Dez mil maneiras onde se incluem outras dez mil palavras. Uma palavra julgada não é uma palavra acusada, até porque todas as minhas palavras aqui não te vão causar qualquer sensação a não ser estranheza e, essa é só uma palavra para um texto inteiro.
Tento compreender os significados, faço o esforço para entender o que me querem dizer. Nesse esforço encontro outras palavras em tom de julgamento. As palavras julgam-se umas às outras. As pessoas não tem esse direito. É por isso que nem sempre nos compreendemos, é por isso que muitas vezes vemos o mal e não o conseguimos resolver, o mal está nas palavras. As pessoas limitam-se a usa-las em vão.


"Pode ser que ela assim perceba." = "Quem não se entrega às palavras não faz a digestão dos meus poemas."

domingo, maio 18, 2008

O meu silêncio. Hoje.

Queria que soubesses ao me olhar, que este sorriso é feito de coisas boas. Tenho novamente um brilho nos olhos e uma alegria que pulsa a cada instante em que o coração teima em bater. É a alegria de viver, a alegria de continuar a sorrir para a vida. Porque eu sou feita disto, e tu sabes. Preciso de amor para sorrir sem parar. O amor que está no sorriso e nas mãos dos meus amigos, o amor dos dias de chuva e dos dias de sol, o amor nas músicas que me entram no corpo, na melodia, na letra, na sintonia. O amor da outra pessoa que me quer fazer feliz. Independentemente da quantidade de sois que possamos vir a ver juntos. É o amor que vivo hoje. O amor do momento e das coisas boas que me acontecem. Pequeninas e Grandes. Porque é disto que eu vivo e tu sabes.
Porque teimas em me tirar isto tudo? Porque teimas em me guardar para ti, em me proteger como se eu fosse frágil e não soubesse viver? Não foste livre sempre? Não sonhaste com a tua vida? Com um futuro feliz? Posso ser eu a tentar o amor desta vez, por muito errado que isso te possa parecer? Deixa-me errar sozinha. Julga-me depois, como fazes constantemente, culpando sempre os outros. Desta vez sou culpada. Culpada por querer tentar ser feliz, da maneira mais errada de todas. Mas tu não compreendes. Não fazes um esforço, o esforço que fazias sempre. E condenas-me com todas as forças que tens. Prendes-me a existência, quando podias falar comigo sobre tudo e sermos felizes as duas. Porque o meu amor é o teu amor, e a nossa felicidade é uma só.

É tão dificil chegar a ti, agora.....

terça-feira, maio 06, 2008

Sintonias cubicas de um mais infinito

Andei sem ver os passos largos de toda a caminhada,
passei sem querer por caminhos sinuosos sem nunca soltar a palavra.
Aprendi os dias e as horas, os minutos e o tempo.
Sei agora que andar para a frente não é igual a andar para trás.
E continuo, porque sei que amanhã continuarei a aprender
Mesmo quando o teu rosto deixa de se ver e os meus braços
não são compridos o suficiente para te agarrar.
Na planicie arrastada de mais um dia sei, que mesmo depois
dos vales e dos mundos, és tu que encontro nas primeiras
horas da manhã. Porque somos sintonia do universo.

quarta-feira, abril 30, 2008

Psicanálise

Hoje escrevo para não chorar.

Hoje o papel vai borrando letra a letra as lágrimas presas com força na ponta da caneta. E escrevo sem parar. Porque preciso de desabafar, porque é inutil gritar para o ar o que me apetecia cantar. É dia de não saber o que sinto, é dia de não me saber sentir. Bem. Mal. Mais ou menos, nunca. Não gosto de coisas mais ou menos. Aborrecem-me de morte coisas que estão para ser, coisas que nunca vão ser. E morro. Porque eu sim, posso morrer a cada palavra que mastigo calada. Engasgo-me. Antes morrer do que chorar. Que chorem depois por mim quem sobreviver. Se é que o sabem fazer. Dúvido. Que gritem então, que soltem para o ar gargalhadas cinicas. Mas não me deixem morrer descalça. Por favor. Sapatos de salto alto. Já que não choro ao menos que me deixem entrar no inferno a ouvir o barulho dos saltos no chão.


Hoje escrevo para não chorar.

quinta-feira, abril 24, 2008

A neta do meu avô.


Só me dei conta que já não era criança quando comecei a ver as pessoas morrerem. Quando somos mais novos a morte é algo absurdo com o qual imaginamos somente lidar quando crescermos e tivermos tempo para pensar. Quando a morte de alguém nos afecta o suficiente e sentimos necessidade de nos despedir deixamos de lado a infância. As crianças não lidam com a morte, as crianças respeitam-na mesmo não sabendo ao certo do que se trata.
Sempre imaginei que a morte fosse uma coisa boa até porque as pessoas que sabia mortas tinham sido vítimas de doença prolongada ou de velhice. Era natural interpretar as coisas como um ciclo, e não era por me dizerem na catequese que as pessoas depois de morte iam se encontrar com Jesus que achava tudo aquilo melhor. Era natural e acontecia a toda gente, chegava a hora e lá íamos nós, porque merecíamos não ser velhos e não estar doentes em outro lugar. Era bom pensar assim. Até que um dia o meu avô paterno resolveu se suicidar. E agora? Para onde vão as pessoas que morrem e não estão doentes? Porque é que ele não queria viver mais se, para uma criança de seis anos viver é a melhor coisa do mundo? Temos a mãe, o pai, os amigos, os brinquedos, a escola e o gato. Não percebi, e apesar não compreender que aquilo era mesmo uma despedida, estava mais preocupada em perceber como é que tinha acontecido. Eu sabia que havia um motivo. Foi a descoberta desse motivo que fez com que passasse do mundo das crianças para o mundo inexplorado dos adultos. Fui compreendendo a morte do meu avô ao longo dos anos. Gosto de pensar que morreu de desgosto, que se matou por amor. Morrer por amor é uma forma bonita de nunca abandonar a infância, afinal o amor é sempre possível. O meu avô suicidou-se por saber que a minha avó estava com um cancro terminal que em breve lhe tiraria a visão e também a vida. A minha avó não morreu da doença, a minha avó morreu para ir ter com o meu avô, porque depois da morte a criança que eu fui, acreditava que não havia mais nada além da paz de se estar como sempre se desejou.
Não fui ao funeral de nenhum dos meus avós paternos, estava ocupada a descobrir a morte e ainda não tinha noção do que seria uma verdadeira despedida. Como era de esperar vi muito mais gente morrer, pessoas velhotas, pessoas doentes e outros que morreram por amor.
Só com 11 anos descobri que a morte envolvia uma despedida e que isso era o mais difícil de tudo, depois de compreender os motivos. O meu avô materno adoeceu com um problema nos pulmões e passou muito tempo no hospital. Ainda não era muito velhote, mas era meu avô e por isso tinha de ser considerado assim. O problema da morte do meu avô estava ligado ao saber que isso ia acontecer e também ao facto de isso demorar tanto para acontecer, o que me arrastou num processo de adiar despedidas . Até um dia. Foi desolador. Depois de descobrir o que é a morte com seis anos, foi muito mais complicado aceita-la e conseguir despedir-me de quem não morre por amor, mas “por favor”.
Senti muitos remorsos de não ter ido ao funeral do meu avô despedir-me dele como fizeram outras pessoas que até gostavam menos dele que eu. Mas o meu avô deu uma ajudinha para se despedir de mim e nesse mesmo dia fez com que eu corresse sem parar atrás dele que ia num autocarro vazio. Corri até não ter forças. Ele ao ver-me parar, disse-me adeus e sorriu. Ele estava feliz, e disse-me para ser feliz como sempre fazia, chamou-me de neta. Foi um sonho. Nunca me cheguei a despedir do meu avô, tento o mais possível mantê-lo vivo dentro de mim e isso só é possível sendo feliz, como ele pediu. Hoje ainda há uma criança que vive escondida dentro de mim: A neta do meu avô.

terça-feira, abril 22, 2008


Espera por mim.
Deixa-me maquilhar as feridas antes de sair.
Não quero que me olhes com pena.
Não quero que repares que tenho passado.
Olha-me nos olhos e segura-me nas mãos.
Sorri, muito, com vontade.
Da mesma maneira que sorriem as crianças.
Sê solto de costumes e entrega-me a vontades.
Tenho tanta vontade de sentir.
Tanta vontade de destapar o corpo.
Que me arranhem com garras no amor.
Que me retalhem de novo o coração ao vento.
Espera por mim.

quarta-feira, abril 16, 2008

Ciclo vicioso


Estava sentada no sofá e fumava um cigarro. Pensava na vida. Pelo menos ela pensava que estava a pensar na vida. Estava alienada de tudo naquele momento devido ao que tinha fumado com os amigos na jardim em frente à sua casa. Os amigos, o jardim, os olhos vermelhos, a droga escondida no bolso, o furo no nariz, e os sorrisos. Nunca imaginou que a sua vida pudesse mudar tanto num ano só, mas o facto é que mudara imenso.
Os amigos eram parte importante da sua vida. Era com eles que bebia os cafés intermináveis depois do almoço, era com eles que falava de discos e de livros. Foram eles que a incentivaram a escrever poemas que eram lidos de barriga para o ar na relva do jardim frente à sua casa. O jardim era uma espécie de habitat onde eles se concentravam horas a fio, mesmo que não houvesse assunto, discos, livros ou poesia para conversar. Talvez por falta de assunto alguém trouxe a droga no bolso para ver o que acontecia. E aconteceu, muitas mais horas a rir sem parar de tudo, a falar de nadas que pareciam tudo, a contar o que não se tinha coragem, a criar laços transparentes entre eles ou baços,caso a memória do dia anterior persistisse. Foi numa dessas tardes animadas com droga no bolso que foram todos ao bairro alto fazer o piercing no nariz. Era um sonho desde sempre. De um sempre recente que não sabia ao certo onde tinha começado. Nesse dia quase todos fizeram qualquer coisa para satisfazer as hormonas ainda adolescentes e já cheias de estimulos.
Finalmente sou quem sempre quis, pensara. Estudava ainda para não ouvir o sermão dos pais, que cegos, nada viam mudar à sua volta. Fotografia é uma área bonita, dizia a mãe. O pai não dizia nada, vivia ausente afogado no copo do whisky que já tinha uma marca permanente na mesa da sala. Também ela bebeu muitas vezes das garrafas que encontrava escondidas na sala e na cozinha. Também ela se ausentava por minutos da vida, da sua vida, enquanto observava detalhadamente o comportamentos dos outros. Sorria. Sorria sempre que via alguma coisa de extraordinária como os sentimentos. A sua poesia era feita dos seus momentos ausentes e da vida dos seus amigos deitados na relva do jardim de barriga para o ar e com a droga no bolso.
O cigarro apagou-se pendurado na mão enquanto as cinzas jaziam no seu colo. Adormecera, cansada do ciclo vicioso da vida.

terça-feira, abril 15, 2008

Hoje é o meu dia mais feliz...

un, deux, trois, quatre, cinq, six, sept, huit, neuf, dix, onze, douze, treize, quatorze, quinze, seize, dix-sept, dix-huit, dix- neuf, vingt, vingt et un, vingt-deux...







Quem diria que aos 22, eu ia dar numa de Bad Girls...

terça-feira, abril 08, 2008

Tortura quotidiana


Era terça-feira. Passavam poucos minutos das nove da manhã, e contrariamente à sua habitual predisposição para dormir até tarde, não tinha sono. Muitos dos seus hábitos estavam de um momento para o outro a mudar drasticamente, e por muito que ela tentasse contrariar essa mudança o facto é que não tinha sono. Ainda na cama, virou-se de barriga para cima e quase sem forças levantou-se sem olhar para trás. Ficou sentada na cama. Observava as suas mãos. A pele estava seca e com manchas. Por mais que se quisesse esquecer de tudo o que se passava, havia sinais por todo o lado que mostravam que as coisas não estavam bem.
Entrou na casa de banho e evitou o espelho em todas as posições que se colocou. Olhou para a escova do cabelo durante alguns segundos e sorriu. Aquela era sempre a primeira coisa que fazia, pentear o seu longo cabelo ruivo. Mas hoje não. Agarrou na escova de dentes e abriu a torneira. Assim que começou a escovar os dentes, uma dor atravessou-lhe as gengivas e viu-se obrigada a parar. Os filamentos suaves da escova comprada de propósito para não a magoar entranhavam-se na pele e abriam feridas. As lágrimas pararam aquela rotina. De repente o espelho abriu o rosto à sua frente. A boca em sangue. A dor. A pele branca, seca e magra. E o cabelo que desaparecia de dia para dia. Enquanto se olhava no espelho chorava. Não tinha pena de si, mas também não aguentava aqueles sentimentos todos que a assombravam sempre que tentava fazer a sua vida normal. Estava esgotada, e todas as forças pareciam agora empurra-la em sentido contrário ao que queria seguir.
Lavou a cara e a boca e saiu de novo em direcção ao quarto. Pôs um lenço cor-de-rosa na cabeça que tinha sido oferecido pelas antigas colegas de trabalho, que agora só ligavam a perguntar como ela estava. Gostava de se ver assim, com aquela cor toda na cabeça enquanto deixava à vista algumas mechas de cabelo que lhe restavam. Eram mechas de cabelo que provavam que nem tudo estava perdido. Como se se tratassem de pedaços de esperança que viviam ainda agarrados a ela, pedaços de um eu agora em decomposição. Vestiu uma túnica de linho verde clara, um tecido leve e fresco, que lhe aconchegada o corpo, de todas as torturas que podiam neste momento ser as roupas para si.
Já na cozinha, tomou os comprimidos e sentiu as náuseas que desde ontem lhe aconchegavam o estômago. Era normal. Já estava a ficar habituada a toda aquela nova rotina, mas fazia tudo para a contrariar. Durante uns tempos ainda manteve o hábito de ir correr para a praia. Hoje não era capaz dessas proezas, o tratamento deixava-a fraca, os vómitos e a má disposição eram uma constante nos dias seguintes ao tratamento. Alimentava-se como se fosse uma criança, nada de comidas fortes e pesadas, tudo muito ligeiro, muito líquido, nada de fritos, nada de ácidos, só coisas frias ou à temperatura ambiente. Era como se fosse um passarinho, pouca comida de cada vez e várias refeições por dia, refeições essas que nos dias seguintes ao tratamento eram um autêntico suplicio.
Nunca se queixou de nada. Sempre que tinha de explodir tentava faze-lo quando estava sozinha e longe dos olhares de pena dos que rodeavam. Estava farta da frase “vai tudo correr bem!”. Era este o sintoma da doença que afectava os outros, as limitações de discurso. Sempre a ilusão, sempre a mentira, todos os dias o mesmo esperar. A mesma tortura quotidiana.

quarta-feira, abril 02, 2008

Turvar

Gostar demais
Sentir demais
Pensar demais
Errar demais
Esquecer demais
Provocar demais
Maré demais
Luz demais
Amar demais

As ilusões turvam o amor.

segunda-feira, março 31, 2008

Nas folhas infinitas do meu poema

Nas folhas infinitas do meu poema
faço rebentar o coração
partindo-o em pedaços de coisas vãs
Por palavras não se sente a dor
no corpo, a dor das àrvores
a dor da alma da natureza.
Amor em pedaços invisiveis.
Nas folhas infinitas do meu poema
estilhaçam-se nos ouvidos
as relações e as solidões sem gentes
é na alucinação dos sentimentos
que ambos o deixam de ser.
São só palavras e não coisas
desumanizadas
Sem alma, sem sentir
Nas folhas infinitas do meu poema
faz-se de conta no existir.

segunda-feira, março 24, 2008

Eu ou Eu

Sorrisos sinceros Sapatos Cores vivas Música dos anos 80 Heat of the moment Flores na Primavera Túlipas Brancas Bouquets Dançar sem ninguém estar a ver Olhares atrevidos Livros apaixonantes Músicas de uma vida inteira Rir de piadas sem graça Os melhores amigos do mundo Encontrar dinheiro esquecido Presentes feitos por quem oferece Tardes no café Ouvir música no mp3 Paris Vodka Preta Roupa de Verão Nadar Andar descalça Andar de carro à pendura Dar beijos na boca com o pezinho levantado Amor Abraços apertados Your Love O silêncio Escrever O solo de uma guitarra Poesia Mandar sms’s Acordar com ataques de sinceridade de alguém Fazer asneiras O cigarro perfeito Sinceridade Bryan Adams Tricot Malas Meias giras Bolinhas Tim Burton Tarantino Amélie Cinema Francês Miminhos Fotografia A minha máquina Lomo Artes do Espectáculo Teatro Shakespeare À Espera de Godot Johnny Depp Andar de Metro Correr Dormir Pianos de cauda O som dos pianos Cartas Escrever no meu Moleskine Conversas interessantes Cultura Psicologia Festivais de Verão Momentos de Introspecção Trapos Borboletas na barriga Ginásio Praia Segredos Miúdos pequeninos Placebo Blog Lugares e Luares Meus Jardim da Memória Pessoas Especiais Encontrar pessoas de quem tenho saudades Comprimidos para as enxaquecas Post Blue Straight From The Heart Pés Não dar conta das olheiras Rockeiros Estrelas Pôr do sol A lua cheia em boa companhia Acordar acompanhada e com beijinhos Lamechice discreta Bad Boys António Lobo Antunes José Luís Peixoto Reunião Toilette Conversation PiniWorld M80 Prima reguila Singstar Maquilhagem Cantar no Banho Massa Canetas Pretas Cadernos Pacotes de Açúcar Cenas Zen Bacalhau com natas Beijinhos da mãe A Fnac A palavra Solidão Melancolia Estar rabugenta com sono Limão em tudo Cariocas Lisboa Sair para beber café Viagens O mundo todo Tradições diferentes Saudades de casa O primeiro amor Artesanato Ir ao teatro com a mãe Grease Paixão Noites loucas de copos Ilha Hard Core Viseu A palavra mágica Concertos na Aula Magna Boas notas Falar sem dizer nada Bolo de Chocolate Avelãs Lixias Amar sem ter noção disso A Tainted Love para dar ideias arrojadas e tantas, mas tantas outras coisas para ser feliz…

domingo, março 23, 2008

Uma luz


Não estamos sós,
somos sozinhos um do outro
por de trás das portas onde escondemos
o recordar. Há uma luz que brota
de um sorriso sincero.
O amor.

segunda-feira, março 17, 2008

(Uma futura peça de teatro)


Celeste: Alguma vez olhaste para esta janela sem ver o que está lá fora??

Marques: O que estás para ai a dizer?!

Celeste: Estou a perguntar se alguma vez conseguiste olhar para a janela sem ver o que está lá fora? Não é fácil... Mas depois de tanto tempo aqui sentada acho que já consigo olhar em frente sem ver nada.

Marques: Cada vez estás mais complicada de perceber Celeste...Acho que deviamos pedir ao João para nos levar a ver as coisas lá fora de vez enquando. Faz-te mal ficar tanto tempo aqui fechada.

Celeste: Achas mesmo? Entre mim e a minha imaginação só está uma janela de quatro vidros transparentes. Mesmo assim, sou feliz por dentro. E olha que hoje em dia ser feliz é uma tarefa complicada.

terça-feira, março 11, 2008

Rua dos Morangos

A primeira coisa que vejo quando saio do metro são sempre os pombos. Ao contrário de toda gente, eu gosto de pombos. Encaro-os como uma espécie de tempero característico desta cidade que a cada dia que passa fica mais velha e adormecida em si mesmo.Ao subir a avenida, antes da rua dos morangos encontro de tudo. É como se fosse um centro comercial ao ar livre onde estão representadas quase todas as pontas do mundo. Pastelarias, todas com os mesmos doces nas vitrinas, talhos, que exibem gloriosos animais mortos pendurados por um gancho, frutarias, onde existem todos os frutos que se desconhecem, retrosarias, com artigos parados no tempo, sapatarias....O particular de todos estes cubículos é que metade dos comerciantes que se instalaram ali não são portugueses. Deve ser esse o motivo pelo qual penso sempre que aquela rua me faz lembrar uma Marrakech limpa e organizada. Depois de observar todo este andamento internacional, onde tenho de abrandar o meu passo cheio de pressa porque alguém leva a idade a pesar nos joelhos estou finalmente ao cimo da rua. Atravesso a estrada e entro num jardim, onde faltam flores no meio de algumas árvores que se vestem com calma para o início da estação. Contraditório a este pensamento do renascer da Primavera, este jardim é povoado por velhos. São tantos que por vezes nem noto a presença dos pombos quando ali passo. Estão sentados em bancos de jardim, em mesas onde jogam às cartas, ou mesmo de pé conversando uns com os outros a memória de outros tempos. Sempre que ali passo atravesso o jardim na diagonal onde me cruzo com aquela flora dominante e onde encontro sempre a figura particular. Essa figura particular é um velhote que se veste com fatos de treino de tecidos estranhos usados nos anos 90 e que fala sozinho como se fosse um deputado. Tem dias em que anda de pé de um lado para o outro para mostrar o seu descontentamento, em outros dias está sentado a olhar para o chão e a falar baixinho. Junto dele existe sempre um cão castanho, grande e fiel. Suponho que seja o seu cão, o seu fiel amigo que o escuta em todos os momentos e assim se integra naqueles pedaços de representação do real. É um quadro vivo, que além de mim, poucos dão atenção.Ao atravessar a estrada entro na rua dos morangos. A rua dos morangos não se chama rua dos morangos, mas gosto de pensar que sim. Nesta rua há imensas lojas de comércio tradicional, o comércio português adormecido que contrasta com a rua anterior dos meus passos. Aqui parece que nada andou nas linhas do tempo. As mercearias fazem lembrar as lojas da aldeia com tudo pendurado à porta. Existe, mais a baixo, uma senhora que faz arranjos de costura numa máquina antiga a pedal, e onde podemos ver pela janela um pequeno atelier cheio de bordados e coisas que eu pensava já não existir. Há pequenos cafés com apenas duas mesas lá dentro para clientes, duas padarias onde numa estão sempre três mulheres à conversa, e a outra está sempre fechada à hora que passo. Quase no fundo da rua há uma loja de mobílias que parece ter ido buscar todos os artefactos às casas das nossas avós, no entanto as mobílias estão imaculadas e ainda não estiveram em casa de ninguém. A rua dos morangos parou no tempo. Mas na rua dos morangos começou agora a primavera. Em todas as frutarias ou mercearias ao longo da rua existe pelo menos uma caixa de morangos na porta. São essas caixas de morangos que todos os dias mudam de preço devido à fragilidade do fruto e que dão um cheiro característico à rua dos morangos. Metade das vezes são frutos pequeninos, já meio pisados de tantas escolhas. A rua dos morangos parece ter adormecido há vinte anos para despertar agora com rugas. Há pessoas nas janelas que vêm passar os carros, velhotes que se arrastam pela calçada a cima com pequenos sacos de compras, por vezes morangos, muito poucos morangos no saco.

quarta-feira, março 05, 2008

Colagens

Do que é que precisas?
Harmonia perfeita num só lugar
grandes dias pequenos mundos, que fizeram história
A estória, porque é bom ler. Cartas
Livros, a palavra mágica... ninguém vive sem plavras.
para grandes males a arte do José Luis Peixoto e o
Johnny Depp requintadamente belo, envolvente e apaixonado
Os sonhos, as ilusões, wings
Ser criança! mais mimos sem fim
Paixões fortes, olhar sem medo
A desordem da sua vida, a mudança.
O lado selvagem da vida e da morte
O tempo, as horas, a janela e o vento
A amizade é já um manual de sobrevivencia. A única
Grande receita que talvez não resolva o
que não costuma fazer sentido mas
muito relevante
A amizade não tem preço. Não tem mesmo.
E cá estamos nós de maõs dadas, Fipa dançando o universo da alma.
bi-jou-x


[Isto são pedaços de revistas colados de modo coerente, que serviram para colocar sorrisos na cara de uma pessoa]

Partida --------------Chegada


Vesti a camisola vermelha que deixa o umbigo de fora.
Corri pela rua, descalça, com o maior sorriso que conseguia segurar.
Agarrei as tuas mãos e olhei-te nos olhos de uma só vez.
Tocamos todas as músicas que amamos num só olhar.
Dissemos as palvras através das notas de um reportório do passado.
Aquilo que o coração sente é música, o compasso certo de uma arritmia apaixonada.
É nessa cadência agora ritmada pelas ideias descansadas que corro de novo.
Com a barriga a sentir o vento que já não se cola no corpo presente encoberto.
Ficaste ao longe, muito perto da memória, na efemeridade que foi tudo aquilo que passou.
A viagem, finalmente, encontrou o seu destino.

domingo, março 02, 2008

Um.




Há um silêncio que anoitece o nosso encontro.
A espera arrastada no comunicar dos corpos
Na ousadia contida na ponta dos dedos
A noite que cai sobre o nosso encontro.
Faz-nos mais sós do mundo, a escuridão.
O equilibrio das palavras amarradas
nas bocas, transparece a harmonia
Do bater do coração
Sem palavras, o grito abafado do abraço
Uma única emoção no acender da luz
Há uma noite em nós
Onde começamos dois e acabamos,
Um.