quinta-feira, janeiro 17, 2008

O primeiro poema da manhã


Dos dias maus apago tudo,
apenas te acendo o cigarro perfeito.
Lanternas toscas é o que somos,
iluminando os rostos para acreditar no reflexo do espelho.
Todos os dias procuramos uma coisa diferente
nos dias menos bons viramos o reflexo ao contrário
e perdemos esperança na alegria.
Dos dias maus apago-te a morte
e acordo-te para a vida.
Como se fosse um sabão sentimental
que dá para esfregar a alma.
Fosse eu alguma coisa para ver que
os dias apenas nos atiram terra para cima.
Dos dias maus guardo o pó
e deito-te fora as perfeições,
cada vez somos mais sós,
cada vez somos mais o que somos.


[Fipinha, as palavras são tuas! a inspiração és tu!]

domingo, janeiro 13, 2008

Palavras com cheiro a tempo.

Incerteza. dúvida.pensamento que divaga ao sabor do que se quer,
do que nunca se terá, porque tudo se transforma quando é real.
Incerteza dos dias, se chove, se faz sol, se é hoje e amanhã.
Dúvida. mistério. Busca. procuro-te no tempo, no hoje e no ontem
(eu já me cruzei contigo e perdi-te por nada) no amanhã.
Nunca te encontrei perto da janela, encostado à ombreira da porta
com um sorriso solto deixando escapar gargalhadas mudas com os olhos.
E eu sei que não te consigo ler. No dia em que decifrar a tua linguagem
conhecer-te-ei como os dias conhecem as noites, amando-se demoradamente.
Busco-te em todas as linguagens, a das palavras, a dos gestos, a dos olhos,
a das mãos e a do silêncio.
Busco-te para que me preenchas os silêncios e os tornes preciosos.
Sem palavras, sem nada. com tudo.
Busco-te.

sexta-feira, janeiro 11, 2008

Somos


Aplico-te a minha literatura estranha sem pontuações.

Escrevo-te poemas com os olhos só para chamar a tua atenção.

Na ponta da caneta estrangulo palavras até ao último suspiro.

A última hipotese das minhas palavras são os teus olhos.

Tudo é confuso e indefinido entre nós.

Escrevo-te sem regras, agarro-te a mim sem costuras.

Somos mais que palavras ordenadas, somos o caus e a magnolia

que tudo suga e liberta.

Le Revenat, le Fantôme et le Fantasme


No meio de uma rua sem ninguém iam os meus medos.
Do lado direito do passeio ia o Revenant, no meio o Fantôme e na outra ponta o Fantasme.
Revenant tinha o seu rosto muito pálido e as olheiras bastante acentuadas que em tempos lhe deveriam sobressair imenso os olhos meio verdes. Usava uma boina de campones e em tempos fora uma pessoa muito bem disposta com tendencia para muitos sorrisos e lengalengas. Era um medo bem disposto, mas hoje somente restavam em si palavras que ficaram por dizer qm dias passados. A sua voz não pode ser mais ouvida e o seu corpo não consegue encontrar um lugar em mim onde encostar a cabeça e descançar.
No meio ia o Fantôme. Esse era o meu medo mau. Este era um medo muito muito misterioso que não se dava facilmente a conhecer, a menos que isso envolvesse muito sofrimento e esforço da minha parte. Era o único medo com o qual eu raramente falava, conhecia a sua existencia, mas sempre tive muita tendencia em ignora-lo durante os dias felizes. Sem duvida alguma, o Fantôme era o mais inoportuno de todos os medos e aparecia sempre sem avisar previamente. Visitava-me sem avisar e em alturas em que não era muito bem vindo.
Era um homem de estatura média e tinha o cabelo oleoso, muito agarrado à cabeça. A sua pele era grossa e brilhante, não tinha um aspecto bonito. Era um medo de poucas conversas, e o seus silêncios, pouco eloquentes, perturbavam-me a existencia.
No lado esquerdo, junto à beira da estrada seguia Fantasme. Este era um medo exibicionista por excelencia. aparecia muitas vezes junto a mim quando era apenas uma criança. Lembro-me das minhas amigas também me falarem da existencia dele, mas sempre com cotornos muito diferentes da precepção que eu tinha dele. Lembro-me que, a maior parte das vezes que me vinha visitar, trazia umas orelhas compridas muito grandes e escondia-se atrás da porta do meu quarto para a minha mãe não o encontrar.
O Fantasme é o mais cobarde dos meus três medos. É facilmente ignorado quando começamos a deixar de ter medo do escuro e começamos a perceber que afinal ele faz parte da nossa imaginação. Quando crescemos e isso acontece, o Fantasme pede ajuda ao Reverant e tenta socorrer-se dos seus poderes de metamorfose para nos criar situações complicadas. Este é o unico medo que me põe a rir, talvez por ser o mais antigo e ter mais histórias para contar.

terça-feira, janeiro 08, 2008

Lixeiras sentimentais para Ama-dores




Quem não se entrega às palavras, não faz a digestão dos meus poemas.

domingo, janeiro 06, 2008

Ardes vagarosamente em mim




Deixa arder

Já existe dióxido de carbono a menos no ar

que as palavras que me deixas consomem-me sozinhas

Deixa que as frases fervam o sono até ele se evaporar

as pedras da sopa ficarão de fora só para eu ter que mastigar

a tua fome.

A cabeça evapora as minhas melhores ideias,

as menos frescas, as mascarradas, as terminais.

De ponta a ponta vejo que queima sem cessar,

silênciosamente.

Deixa arder em mim,

não há pressa, apenas mais fumo no ar.

Deixa ferver.

sábado, janeiro 05, 2008

- Era um Carioca de limão e uma boa conversa, sff.


Estavam sentadas numa mesa de um café de Lisboa igual a muitos outros. Um café da moda para onde os adolescentes correm depois das aulas para contarem o desastre que é as suas vidas e fumarem uns cigarros. Era um daqueles lugares cheio de cores e padrões, cadeiras de acrilico baratas e outras coisas que eram mera decoração.
Elas já não eram adolescentes, mas gostavam de se encontrar ali, já era quase um hábito. Não valia a pena discutir outro lugar.
Sentadas frente a frente, uma segurava um cigarro na mão direita enquanto roía as unhas da mão esquerda. A outra gesticulava e falava imenso sobre coisas que nunca tinha visto, sobre pessoas que provavelmente nem existiam, mas que ela gostava de acreditar que eram mais que a sua iamginação. Ambas acreditavam nessas coisas, quase em segredo e numa cumplicidade que se iria revelar aos poucos.
-Uma lareira, um livro e um ombro onde encostar, é pedir muito?
Riam. Mesmo quando o tom da conversa não parecia o mais recomendado. Pelo modo como falavam pareciam compreender-se. Havia nos seus olhos alegrias de meninas que cresceram depressa sem pedir mas que mesmo assim não o queriam parar de fazer.
Queriam sem saber, ser como os livros de que se gosta. Queriam passar devagar e com gosto pelas mãos, queriam que as suas palavras fossem compreendidas como se fossem poesia, verso em branco- diziam. E quando esse livro acabasse queriam deixar saudades nas mãos e no espirito de quem as teve.
Passado bastante tempo de estarem ali sentadas, um empregado aproximou-se para apontar os pedidos:
- Um chá de limão, um carioca.....e duas tostas!
Já estavam ali há tempo demais mas talvez por serem desajustadas ao lugar, ou não adolescentes, ninguém parecia notar a sua presença.
Conversavam sobre relações com prazo de validade, sobre pessoas demasiado importantes e sentimentos perigosos, sobre literatura de ombro que deve ser digerida a dois e com chá quente.
Apesar de estarem ali esquecidas, numa margem entre fumadores e não fumadores que é o mesmo que dizer, no limiar entre os adolescentes e os jovens adultos que frequentavam o lugar, os pedidos lá chegaram à mesa.
Carioca de limão com conversas sobre cinema e peças de teatro, tostas com desejos para o futuro, gafes no português e momentos esperados, chá de limão com pessoas simples e pessoas sensíveis.
Uma delas, de tempos a tempos, folheava o velho caderno e rabiscava umas coisas. Tinham as duas a mania dos cadernos e dos momentos imortalizados em palavras, assim como os desenhos sem sentido. A outra agarrava no telemóvel, uma vez e outra, para controlar o tempo que faltava para o autocarro ou para responder a uma conversa paralela que se intrometia entre elas.
Fumaram juntas aquele a que chamavam o "cigarro perfeito", momentos que dividiam muitas vezes e em que aquele ritual parecia fazer sentido.
Não chegaram a conclusão nenhuma sobre as suas vidas, talvez tivessem descoberto que o atendimento ali era mau e que não eram mais adolescentes,ou talvez ainda o que era uma relação à francesa, mas nada mais que isso.
Aquele era apenas mais um momento para cigarro perfeito, o carioca de limão e uma boa conversa e isso chegava.

quinta-feira, janeiro 03, 2008

Lugares meus

A minha alma tem mais um lugar no mundo para descançar.
[Paris]

quarta-feira, dezembro 26, 2007

Resposta:


E se no final, tu fosses a resposta?

Às minhas preces sem religião, às preces pouco

devotas de quem parece não acreditar

em mais nada.

Não fui feita para acreditar, também não desconfio, apenas

questiono.

Se eu não questionar, tu nunca serás a minha resposta.

Quando a luz diminuir e tapar as cores da nossa vista

os braços procurarão o caminho. Os nossos braços serão

os nossos olhos das sensações sem cores,

tocarão sentimentos incolores com as mãos.

Quando falatarem cores e texturas aos sentimentos,

quando deixarmos de acreditar nas preces,

teremos de aprender a viver outra vez,

para sentirmos de novo, de todas as maneiras.

E será sempre a mesma história, a mesma descoberta

sem percebermos bem o porquê. Somente para voltar a questionar.

No final, qual será a minha resposta?

segunda-feira, dezembro 17, 2007

De passagem.

Gosto de homens que cheiram a café,
mulheres que ficam de pé a olhar para o nada.
Gosto de míudos constipados e ranhosos.
Dos pais que cheiram a café e usam lenços de pano,
Das mães que não vêm nada porque não estavam lá.
Gosto de quando não chove e também não faz sol,
de quando ando com roupa a mais pendurada nos braços.
Do Natal e das férias grandes.
Gosto dos homens que cheiram a café e têm medo de bichos,
que se arrepiam a falar de coisas que não contam a ninguém.
Gosto quando as mulheres apáticas acordam para ir às compras.
Das crianças que gostam do Verão porque não se lembram do
do peso dos livros nas costas.
Gosto de ver alguém a escrever com o cigarro pendurado na mão.
Gosto quando isso acontece num café, quando as empregadas apontam
pedidos de cabeça na lua porque não têm fome.
[E eu gosto de muito pouca coisa.]

quarta-feira, novembro 14, 2007

Estranho. [ no metro em metro]


De fatos de trabalho, de cerimónia
fruto de muitas palavras que apontadas das canetas
poderiam ter sido bocas de animais
que não sabem escrever.
De gravatas enforcadas no pescoço,
reflexo do espelho que os outros têm de nós mesmos
Sou fruto de imagens de objectivas manipuladas,
Sou parte do teu ódio ao uso da pontuação correcta,
como nos botões dos fatos que apertas,
esses que são mais teus que as minhas memórias que não te existem.
E os barcos despidos
de desejos oprimidos em mar chão, de marés como as luas,
sabes que sou de gente, de tempos, de águas.
De coisas que não são tuas.

sábado, novembro 03, 2007

Avant La Haine (Romain Duris & Joanna Preiss)



Lui :
Sais-tu ma belle que les amours
Les plus brillantes ternissent
Le sale soleil du jour le jour
Les soumet au suplice

J'ai une idée inattaquable
Pour éviter l'insupportable

Avant la haine, avant les coups
De sifflet ou de fouet
Avant la peine et le dégout
Brisons-là s'il te plait

Elle :
Mais je t'embrasse et ça passe
Tu vois bien
On s'débarrasse pas de moi comme ça

Tu croyais pouvoir t'en sortir,
En me quittant sur l'air
Du grand amour qui doit mourir
Mais vois-tu je préfère
Les tempêtes de l'inéluctable
A ta petite idée minable

Avant la haine, avant les coups
De sifflet ou de fouet
Avant la peine et le dégout
Brisons-là dis-tu


Lui :
Mais tu m'embrasses et ça passe
Je vois bien
On s'débarrasse pas de toi comme ça


Lui :
Je pourrais t'éviter le pire

Elle :
Mais le meilleur est à venir

Ensemble :
Avant la haine, avant les coups
De sifflet ou de fouet
Avant la peine et le dégout

quarta-feira, outubro 17, 2007

Bob: Can you keep a secret? I'm trying to organize a prison break. I'm looking for, like, an accomplice. We have to first get out of this bar, then the hotel, then the city, and then the country. Are you in or you out?
Charlotte: I'm in. I'll go pack my stuff.
Bob: I hope that you've had enough to drink. It's going to take courage.

Lost in translation


p.s.- tão eu.

segunda-feira, outubro 08, 2007

A minha alma descansa em todas as cadeiras do mundo.

terça-feira, setembro 25, 2007


Se as purpurinas no meu imaginário não tivessem uma conotação relativamente má, acho que poderia explodir neste momento e transformar-me num milhão de particulas coloridas e brilhantes.

sábado, setembro 08, 2007

Rascunhos de Uma Conversa Imaginária [Artistas]


-As voltas das palavras criativas iguais a todas as outras, mas conjugadas com imaginação.

-Não somos iguais a todos os outros, somos apenas parte deles.

-Falamos dialectos semelhantes com pontos de discórdia, mais além.

-Discutimos de um modo engenhoso porque somos artistas de nós mesmos.

-E trabalhamos com as mãos, moldamos as ideias e os corpos e sorrimos perante obstaculos (sabemo-nos fracos).

-Somos fracos em crescimento, fracos em evolução. Sempre fomos menos mas somos sempre, nós. [nos outros somos diferentes]

-Temos ideias grandes em corpos pequenos, encontramos a beleza visual no disforme da mente. Só na mente existe deformação.

-Temos o mundo todo dentro de nós, completamos uma peça do universo quando saímos de dentro.

-Os meus pensamentos pertencem a todos os lugares que eu sou e sujam guardanapos de papel.

terça-feira, agosto 28, 2007

Contradição


Não basta gostar,
pensar que se gosta e que se quer sempre muito.
Ler o amor em todo o lado
é problema dos olhos,
o coração não ve.
O coração sente coisas, qualquer coisa
em forma de sentimento.
E o amor não tem forma, é imaginação.
Ar que ocupa espaço e torna o peito denso,
forte [ é por isso que suspiro]
Não basta amar, pensar que se ama
pode ser doença.
Se o coração bate mais depressa é porque não há trânsito
se não bate não há desporto que resolva o problema.
O coração tem manias, escolhe quando
bate mais depressa [ engana-te sempre]
Escolhe um alvo e atira-se, corre depressa
pensa que gosta, que quer muito, mas o
coração não ve, o coração não pensa.
[ o coração precipita-se]
E o amor dissipa-se, escapa, foge, esconde-se
na cabeça. Ela pensa, ela ve, ela fala.
O amor não gosta do coração, são contradição.

quinta-feira, agosto 16, 2007

Partida.


Vais embora. Dentro de uma mala de cartão num dia de chuva, fechada na página de um livro de fantasia com uma história pequenina igual a tantas outras.
Arrumaste o coração no meio das roupas de verão entre as camisolas e os biquínis, as histórias do passado e as frases bonitas. A tua mala pesa o peso da tua vida, e o coração pequenino do tamanho da tua mão é leve e sabe voar.
Levas no rosto uma expressão de plenitude que brilhará à medida que os teus olhos percorrerão o rasto do caminho. De janela aberta, o vento no cabelo levará com ele a carícia que faltou o ano inteiro, a mão que não espalhou carinho e paz e que te acompanhará na viagem de mais uma depressão sazonal. No teu regaço dormirá um livro que te roubou sorrisos e te acompanhará em horas e horas de silêncios comuns.


- Vais embora amanhã...
- Vou...
- Quem me dera que esse brilho com que me olhas viesse de dentro do teu coração.

sábado, agosto 11, 2007

A última palavra do meu poema és tu.


O suicídio das palavras que se equilibram vertiginosamente,
que tentam saltar sem olhar para a linha de baixo
acabando por destruir as outras que não são melhores,
que são o fim do poema.
Não consideram digno ser as primeiras, as palavras
a imagem rabiscada de trás para a frente.
Significado,
as palavras morrem para ganharem das minhas mãos
a vida perpétua.
Uma condenação justa num poema sentido.
Escravas de tinta negra que nasce na ponta da caneta,
enrolando-se em linhas horizontais,
infinito,
trabalhadas com rigor em cima de um papel qualquer,
carregando nas costas ideias que ficaram na cabeça, nos restos do embrião,
A mãe literatura é igual à mãe natureza.
Um poema é a palavra condenada à imensidão.
A poesia acalma a dor.

[das palavras]

quinta-feira, agosto 09, 2007

Xadrez


sentei-me à mesa com a morte
jogámos xadrez enquanto nos olhávamos
o calor do meu corpo dissipava
todo o frio da sua ausência ali tão presente
deixei de sentir o sangue por momentos
xeque-mate
a morte venceu sobre mim
[a vida]
Apenas o jogo.